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terça-feira, 15 de junho de 2010

Xampú de Roger Cruz

Xampú de Roger Cruz

Eu não me lembro exatamente ha quanto tempo conheço o Roger.

Talvez tenha sido na época em que comecei a trabalhar com quadrinhos pros EUA, no Art & Comics e ele já fazia alguns trabalhos pra este estúdio... talvez tenha sido na época em que eu publicava o Quebra-Queixo pela extinta editora Vidente, onde o Roger também trabalhou, fazendo quadrinho pornô, letreiramento e uma porrada de outras coisas... mas me lembro uma vez, acho que em 1992, 1993, em que ele foi a um apartamento onde eu morava, próximo à rodovia Raposo Tavares (em São Paulo), me mostrar as HQs que ele fazia pra ele mesmo. Passamos algumas horas de uma tarde conversando e vendo estes trabalhos. Ficou muito claro pra mim que esse cara era talentoso pra caralho... um dos mais talentosos que eu havia conhecido. As influencias de trabalho vinham de Laerte, Angeli, revista Animal e por aí vai.
Conversamos sobre livros, sobre música... nada a ver com super-heróis, apesar de, como eu, ele também curtir a linguagem, a estética, o gênero super-herói, fato que eu também curti nele, porque vi que ali não havia preconceito contra qualquer gênero ou estética.

Não sei se é impressão minha, mas acho que o mercado de quadrinhos nacional mudou muito, de 1983 (quando comecei a publicar) até hoje. Naquela época existiam muitos quadrinhos nacionais sendo publicados em banca, não em livrarias... Este era meio que um mercado dos sonhos... De qualquer maneira, apesar da quantidade de quadrinhos nacionais e editoras publicando estes trabalhos serem (eu acho) maiores do que o que temos hoje, o que sinto é que o meio, a mídia quadrinhos, tem um peso mais sólido, mais respeitado... mais sério, até, em relação às pessoas e à própria mídia. Naquela época não se conseguia viver muito bem de quadrinhos, tínhamos as editoras independentes, como a própria Vidente, a Nova Sampa e outras menores, e tínhamos a Abril e Globo, pra onde fazíamos trabalhos de quadrinhos direcionados, comerciais, tipo gibi da Xuxa, Faustão, Gugu Liberato, Angélica, Trapalhões e por aí vai. Naquela época as pessoas perguntavam “você faz historinhas? E pra trabalhar? Você faz o que?” O mercado era muito diferente do que temos hoje. Podem acreditar.

Aconteceu então, que surgiu a oportunidade de trabalhar para o mercado norte-americano, que pagava melhor e tinha um mercado mais estável. Muita gente migrou pra lá. Fomos taxados de vendidos e tudo mais.

Conversei muito sobre o Roger com o Hélcio de Carvalho, do Art & Comics, falando do talento dele e das possibilidades que ele tinha em entrar para o mercado norte-americano. O Roger fez um teste e logo estava trabalhando pros EUA, e já na maior editora de quadrinhos: Marvel. Aquilo nunca tinha acontecido. Pegar trabalho tão rápido lá fora e já na maior editora. Ele achava legal e engraçado, de repente se tornar o desenhista de X-Men ou de um título como X-Men Alpha, principal lançamento da editora naquele ano. Era tudo muito rápido.

Para quem viveu essas histórias todas, é certamente uma visão completamente diferente dos que lêem sobre elas. Só quem estava do lado de dentro sabe o que rolava, tudo o que aconteceu, porque aconteceu e como aconteceu... as tais histórias de bastidores... e são muitas, podem acreditar.

Outro dia vi pessoas comentando que não esperavam este “tipo” de material vindo de um cara que só desenhava super-heróis. Acho que as pessoas confundem tantos as coisas... não conhecem a pessoa e misturam ela ao seu trabalho. Sei o que muito de vocês podem estar pensando dessa frase que acabei de soltar... muitos devem pensar “obra e artista são uma coisa só”. Nem sempre. Nem sempre. Ouvi também outros comentários, mais duros e sem saberem o contexto das coisas.

Existe mercado. Existem escolhas que você faz quando é um desenhista. Você pode fazer trabalhos que, não necessariamente têm a ver com você como pessoa. Isso não é um crime. O cara está trabalhando, ganhando seu dinheiro, sustento sua vida, sua família. Resolvendo problemas da família... e que a resolução depende de dinheiro. Não é porque alguém desenha, e desenha bem, e conseguiu um trabalho estável em um mercado estável, que paga bem e trata bem seu artista, que esta pessoa tem APENAS esta influencia. Ninguém sabe o que a pessoa pensa, lê, escuta, assiste... Mas ela desenha super-heróis e as pessoas já acham que ela dorme com uma roupa de cama do Superman... Nem sempre é assim.

Lembro quando entrei no mercado norte-americano e falaram que eu era um traidor do quadrinho nacional. Lembro também quando desenhei quadrinhos de super-heróis e fui acusado de ser burro e de que, porque não fazia quadrinho autoral, não fazia qualquer coisa que tivesse qualidade, ou esforço, ou merecesse qualquer tipo de respeito, nem digo pessoal, mas profissional que fosse. Na real, nunca me importei com isso. Quem me conhece sabe que não fico me explicando e nem pretendo justificar decisões que tomo. Se tomo, eu encaro as conseqüências disso e pronto.

Acho que as coisas são diferentes, e que é fácil sair falando qualquer coisa sobre uma pessoa, mesmo que não se conheça a história por trás de tudo. Parece que hoje o lance é falar. E falar do que não se conhece... As pessoas não contextualizam, e pior, nem querem contextualizar. Não querem saber quais as referencias do artista, de onde ele veio. As pessoas não querem ir fundo, não querem olhar o material e ver de onde vêem as referencias. E isso está meio que confundindo as coisas....

Vou dar um exemplo.

Eu tenho uma escola de artes e um estúdio. Vejo portfólios o tempo todo, tanto para aprovação para que a pessoa entre em cursos mais avançados da Quanta, quanto pra trabalhar no estúdio. Muitas vezes eles me mostram seus trabalhos e fazem grandes e eloqüentes discursos sobre quais são suas influencias em termos de traço, de narrativa, de técnicas... Antigamente, a maioria dos garotos que vinham até aqui eram influenciados pelos tais quadrinhos comerciais da Marvel e DC, agora as influencias são diferentes, tendendo mais para os quadrinhos chamados hype, underground e tudo mais. MAS, o discurso é muito diferente do que você vê no trabalho. E é aí que eu vejo um problema... Quando você faz um discurso que faz e é influenciado por um quadrinho AUTORAL e no fundo o que a gente vê é que eles são influenciados mesmo por quadrinhos COMERCIAIS, eu acho que a coisa pega. Quando esta pessoa cita uma ou outra influencia que afirma ter e você conversa com ela sobre esta influencia e fica nítido que ela não tem a menor idéia do que está falando, a coisa piora muito. E é isso o que tem acontecido aqui. Então, se você faz quadrinho autoral, ou underground, cuidado com o que fala e pra quem fala... Quando você fala que faz quadrinho underground e mostra pra algum profissional que conhece o tema e ele vê que suas influencias vem de artistas comerciais, isso pode pegar bem mal.

Agora, é diferente quando você não conhece a pessoa, não conversa com ela sobre suas influencias e fala que porque ele fez um tipo de trabalho não pode fazer outro. E é diferente quando você conhece a pessoa e sabe quais são as reais influencias dela, e que o trabalho que ela faz agora, é reflexo dessas influencias. Roger Cruz é um desses caras. Ele não faz só o discurso. Ele tem esses elementos como referencia. E não é porque ele trabalhou no mercado norte-americano, entrando no esquema norte-americano de trabalho numa década complicadíssima como a de 1990, com todo o esqueminha Image que rolava, que ele não tem essa influencia. Se você não sabe o que acontece, não fale.

Como vocês devem ter percebido todo este texto é meio que um desabafo. Isso está acontecendo porque é complicado ficar vendo e ouvindo gente que não sabe o que está falando. Quem me conhece sabe que não sou de fazer isso, mas realmente cansei de ficar ouvindo e vendo asneiras comentadas sobre um amigo tão querido como Roger. Um cara honesto e com um talento incrível.

Sei que o blog da Quanta não é a coisa mais visitada do mundo e nem sou do tipo que da uma de menininho que fica twitando “vou falar mto no twitter, é sério...”, a ponto de achar que este desabafo vá criar polêmica ou não, ou atingir esse ou aquele objetivo... Não é essa a intenção. Mas, não dá pra ficar quieto também ouvindo tanta gente que não tem o que fazer e não sabe do que está falando.

XAMPÚ mostra o talento desse cara. Mostra o jeito dele de fazer quadrinhos. Uma coisa que ele quer fazer a muito tempo e não fez até agora porque sentiu que não era o momento e não porque esta imitando esse ou aquele artista.

O lançamento desse trabalho vai rolar agora na Quanta de POÁ com o excelente povo da Quanta de lá - e que tem um trabalho foda de bom também - no dia 18 de Junho às 20h! E depois rola um lançamento em São Paulo, no dia 24 de Junho na Livraria da Vila em São Paulo.

Confere o trabalho, porque é honesto, como todos os trabalhos que ele fez antes disso, e porque é bom pra caralho.

Marcelo Campos

5 comentários:

  1. Estudei na Quanta nos anos de 2000 e 2001, na época FQ, Desenho com o Edde, e HQ com o Ivan. Na época queria ser um profissional dos quadrinhos e trabalhar para o mercado americano. Hoje, faço Geografia na Unicamp, 4o. ano, e cards para Glasshouse Graphics e pin-ups para o ebay, e ainda "quero fazer quadrinhos para o mercado americano". No início de minha adolescência e até os 17 anos, fiz muitas, mas muitas páginas de quadrinhos, de personagens criados por mim, que eram amigos em situações que vivenciamos. Eram o que hoje chamam-se fanzines... Em 1995, Roger Cruz, junto com Mike Deodato foram os dois primeiros nomes que conheci, lendo a extinta revista "Herói". Lembro o quanto ver os desenhos do Roger me encantavam e fazia com que buscasse melhorar o meu trabalho, com quadrinhos de heróis. Acho que quando entrei na FQ, foi por conta do Roger... mas nesta época não estava lá... Entretanto, quando tive acesso a uma edição da Metal Pesado (em 1999) pensei em quão grandes poderiam ser as possibilidades em contar histórias, desde roteiro, narrativa, estilo... Quantas foram as festas que vivenciei e falei desta história, a sequencia de Xampu. E foram festas beem legais também... No meu imaginário, ilustrador ou quadrinhista que vivesse em São Paulo, tinha que ser que nem o Roger. O clima urbano de suas histórias, os conflitos, o convívio entre as pessoas... Acho que um pouco de tudo que pessoas que gostam de quadrinhos, cinema, rock, vida urbana paulista tem em comum, pode ser visto nas páginas desenhadas pelo Roger. Antes de "10 pãezinhos", do Bá e do Moon, foram nas páginas de "Xampú" que alimentei meus sonhos de também ser um quadrinhista. Abração Marcelo e sucesso para o Roger.

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  2. Eu cursei a Quanta quando ainda era Fábrica de Quadrinhos ha quase 10 anos atrás, acho que tinha 16 anos (hoje tenho 27), hahaha... Lembro que entrei na escola só por causa do Roger!!! No primeiro dia de aula fiquei nervosissímo! Quem me conhece daquela época sabe! Tremia!

    O Roger sempre foi referência pra mim e acredito que pra muita gente, quem conhece o cara, sabe que ali o buraco é bem mais embaixo. Vai ter talento assim na casa do chapéu!

    Parabéns pelas palavras, Marcelo, como sempre botou pra quebrar!!!

    Um enorme abraço procê e pro Roger, grandes professores que se tornaram grandes amigos!

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  3. é... estou realmente com muita vontade de ter o meu xampu em mãos, e pelo jeito será no lançamento na vila q daí tem direito a autógrafo.
    é estranho mesmo qdo filiam alguém a algo e tentam de todo modo engessá-lo nisso. acho até engraçado e deveras limitador. como sempre tu quebra com tudo no texto então nem preciso blablablar sobre. o q sei é q o roger é um cara tretado de bom, com um traço q se vê de alguém em evolução (o q me agrada sempre), q se mostrou hiper versátil, coisa q não é das mais fáceis, para adentrar e agradar ao gosto do mercado americano, mas q tem muito mais coisas pra mostrar além dos super-heróis. e q mostre mesmo. eu acho q espero por essa hq do roger desde 99 acho, do lançamento da metal pesado brasileira, onde ele primeiro nos mostrou o sombra e demais personas da história. lembro q na ocasião pirei naquele "outro" desenho dele (q eu conhecia só o traço da marvel, daquela primeira hq do hulk e depois em x-men alpha), e na época havia lido uma entrevista dele dizendo q qdo iniciou-se nos quadrinhos queria mesmo era fazer algo na linha do laerte e tal. ali eu vi um grande artista q sabe o q qr e o q fazer pra ter o q qr alcançar. e mais, me deixou instigado pra vê-lo fazendo mais outros gêneros de hqs. e agora temos aí. e esperarei dia 24 pra ter o meu xampu em mãos.

    grande abraço a todos e boa sorte com os novos albuns roger!

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  4. Fala, Marcelo! Seu texto, mais que desabafo, é uma justa homenagem ao Roger, e vc disse tudo, sem saber o contexto, as pessoas vão "criando" suas visões de mundo e criticando por criticar.
    Abraço,

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  5. Fernando Mena3:03 PM

    Olá, Marcelo. Já tenho meu Xampu e digo que vale cada centavo investido! Não sei das histórias de bastidores ou difamações que vc citou aí, mas me pareceu que, com receio disso atingir um trabalho tão particular e competente, faltou valorizar ainda mais a qualidade do álbum.
    Xampu tem quadrinhos que poderiam ser splash-pages de tão bem detalhados (detalhe bom, sem exibicionismo, aquela coisa que cansa), uma diagramação fluída que ainda permite histórias paralelas em balões de pensamento que revelam altos (ou baixos) desejos dos personagens, e personagens tão bem construídos que me fizeram ter a certeza de que existiram realmente! (Se não existiram, não me conte.)
    Minha HQ favorita alí foi "Max" - é tocante como a passagem do tempo pôde deixar a história tão envolvente.
    Antes de receber meu álbum andei lendo sobre Xampu e não reconheço um texto sequer à altura do prazer que tive ao lê-lo. É coisa muito amadurecida pra gente que crê denunciar influências de Gorillaz alí e ignora homenagens à Pasqual Ferry e até à Cages de Dave McKean. Já estou relendo, recomendando à quem posso e desejando sucesso ao Roger e a vc que tb acredito estar no esforço de divulgação dessa preciosidade. Levantar um hype merecido nesses tempos é pra poucos e espero que vcs consigam! Assim, garantirei meu Xampu 2, 3 e o que mais vier.
    Abraços,
    F. Mena.

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