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segunda-feira, 14 de junho de 2010

CURSO DE DESENHO – O CONCEITO DA QUANTA – parte TRÊS

Quando comecei a pensar em como criar um curso de desenho, a primeira coisa que me ocorreu é que o início de tudo seria o mais complicado... Fazer com que a pessoa entendesse que deveria primeiro aprender a aprender a desenhar. Sei que esse pensamento soa presunçoso, mas era o queu realmente pensava porque, na minha visão da coisa, entendi que a maioria das pessoas está convencida de que um curso de desenho deve ser construído dentro de um modelo rígido, que inicia o processo de aprendizagem de um jeito, da seguimento de um jeito e não permite que este processo evolua, que ele se desdobre... E é aí que começa o problema, porque na visão do nosso curso de desenho, o aluno deve perceber que aprendemos muitos dos fundamentos do desenho para depois podermos “desestruturar” estes fundamentos, justamente porque temos o conhecimento desta estrutura.

Considero importante o estudo acadêmico da forma, centrado na observação direta do real. Esta é a base. É o início de tudo. É a coluna. Mas, em arte, e principalmente em um curso de desenho, imagino que esta coluna não foi criada para ser rígida ou imutável. Ela foi criada para ser maleável, fluída, porque a influência da visão do artista “utiliza” esta estrutura como base, e a desestrutura dessa coluna é justamente o que torna única sua visão sobre ela. Ou seja, é justamente a interpretação que o artista dá dessas estruturas, sua interpretação do real, que torna tudo interessante e único. É neste ponto que o artista atua... MAS, ele só consegue desestruturar com propriedade, quando conhece a estrutura. O que chamo de “desestrutura” é a construção da identidade gráfica do artista, da sua linguagem gráfica, o chamado “estilo”. Para mim, é mais difícil ter um “estilo” bom, sem conhecimento desta base... É claro que existem os artistas totalmente intuitivos, e é claro que entre eles existem os que “desestruturam” com propriedade, ainda assim considero o estudo da estrutura importante para estes próximos passos.    

Tudo isso, é claro, é uma visão particular sobre o tema. Minha intenção com estes textos não é a de sugerir uma verdade absoluta.

Quando penso no nosso curso de desenho, é muito importante fazer com que os alunos entendam que tudo faz parte de um processo... E que esse processo é lento, longo e necessita de paciência. Ele deve entender que existem estágios e deve ter a humildade de caminhar lentamente, de confiar no processo. Os fundamentos do desenho são importantes, e o aluno deve se aprofundar nisso. Mas é importante entender que este estágio faz parte de um processo. Que existem outras etapas. E que isso não significa abandonar ou negar os fundamentos para seguir em frente ou evoluir... Muito pelo contrário, é justamente ter sempre os fundamentos ali do seu lado, dando a base, dando a estrutura, a coluna, dando consistência ao trabalho, desafiando o desenhista a entender cada vez melhor a forma. Dando qualidade à sua interpretação do real.

Acho que um dos principais problemas na estruturação não só de um curso de desenho, mas principalmente, na formação de um pensamento sobre desenho, é que a maioria dos ensinamentos é passado de maneira rígida, quer dizer, você deve entender desenho dentro dessa perspectiva acadêmica e não poderá tomar outras direções, não poderá ver a forma de outra maneira a não ser a lecionada dentro desta visão, caso contrário você estará contradizendo tudo o que aprendeu. Assim o curso de desenho e o pensamento que ele imprime no aluno, impedem a existência dos estágios, da evolução.

O aluno deve entender que toda a informação adquirida serve para construir a base, mas que essa base é fluída e evolui conforme os conceitos e técnicas são absorvidos.    

Por isso, uma coisa que me preocupa muito, é perceber o imediatismo da maioria dos que querem estudar desenho. Todos querem aprender, e aprender rápido! E muitas vezes penso que este imediatismo é um reflexo dos conceitos rígidos sobre como um curso de desenho deve ensinar a desenhar.

O imediatismo faz com que ele deseje aprender apenas parte desta coluna, dos fundamentos do desenho. Ele não tem o desejo de aprofundar os conhecimentos. E isso é uma pena. Porque ele estanca em um estágio de aprendizado inicial... É como se ele nunca tivesse ouvido falar em martelos e pregos, e neste curso ganhasse estas duas ferramentas, mas não sabem para o que cada uma serve, e muito menos como e para o que usá-las. É impossível entender os conceitos se você não se aprofunda neles. Como você quer encontrar um caminho estruturado para seu trabalho, se não conhece a fundo a base? Como você quer evoluir e criar um estilo próprio, uma identidade gráfica embasada, sólida, se não conhece a fundo estrutura mais básica? 

O aluno quer aprender as técnicas, os conceitos, mas muitas vezes não quer ENTENDER estes conceitos. E se ele não entender, não evolui. 

FIM DA PARTE TRÊS

CURSO DE DESENHO – O CONCEITO DA QUANTA – parte UM
CURSO DE DESENHO – O CONCEITO DA QUANTA – parte DOIS

2 comentários:

  1. Belo texto. É bom ver como vocês se importam com o aprendizado e como levam a sério o desenho. Venho tentando aprender a desenhar há uns dois anos e meio e sei como é dificil evoluir e sei que cada passo é uma vitória e como cada fundamento que a gente aprende ajuda muito nessa caminhada.
    Abs
    Davisson

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  2. Olá Marcelo e colegas de trabalho da Quanta,meu nome é Leonardo Rodrigues sou desenhista e professor; tenho lido alguns textos publicados por vocês, notei algumas afinidades na visão de vocês com a minha e creio que um diálogo possa ser estabelecido;eu tenho postado uma série de textos sobre estágios de desenvolvimento no desenho em meu blog,e,embora nutridos por uma visão bastante pessoal se constituem também de uma abordagem objetiva do processo,no entanto tenho notado uma certa resistência de colegas de trabalho com relação ao caráter bastante complexo dos estudos, alguma timidez que talvez trave um pouco a galera,e eu acho que não devemos ter medo de nos aventurar nas grandes questões; por isso,gostaria de de propor aos senhores algum tipo de diálogo via on line no qual pudéssemos desenvolver melhor as ideias propostas,talvez um forum de discussão...não sei ainda, mas acredito que uma troca de conhecimentos e experiências é fundamental aqui;se houver interesse aguardo resposta.
    grande abraço

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