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sexta-feira, 17 de março de 2006

BEM VINDO AO DILEMA por RONALDO BARATA # 12




EU TENHO MEDO DE OTAKUS! É SÉRIO!! ou NIGUÉM GOSTA DE OTAKUS (A NÃO SER OUTROS OTAKUS)
Não, não é um medo físico, mas sim, eu tenho medo de otakus. Eles me assustam... Sério mesmo. Fico muito preocupado quando estou perto de um ou quando leio algo escrito por um deles.

Mas, primeiro de tudo, pra começar esta peleja que, talvez, seja a última de minha existência pacífica – depois deste texto tenho certeza que serei odiado e perseguido para todo o sempre – tenho que esclarecer alguns pontos, começando pela raiz do problema:

O MANGÁ
Mangá é a palavra japonesa para História em Quadrinhos. Literalmente. Assim como nos EUA chamam de Comics ou Sequential Art, na França de Bande Dessinée, na Itália de Fumetto e por aí vai. Isso é um conceito simples e – que desculpem os mais radicais – indiscutível.
Acontece que, sei lá porque cargas d’água, neste país, as pessoas começaram a definir mangá como um estilo.

Segundo o dicionário Houaiss, estilo é a maneira particular de se expressar, de se vestir, de viver etc. ou uma tendência artística.

Então, é aí que entra a primeira bobagem: Segundo a “cultura” popular, todos os quadrinhos feitos no Japão são no “estilo” mangá.

Hein? Num país inteiro, com milhares de artistas, com os mais variados tipos de arte, como pode TUDO ser um estilo só?

Não sei se vocês sacaram antes, mas eu repito:
“...maneira particular de se expressar...” particular, não coletiva;
“...tendência artística.” tendência, não regra.

Pra mim, sempre pareceu meio estúpido jogar todos os autores japoneses num balaio só e chamar de estilo.

No Japão, há quadrinhos pra todo tipo de gente, pra todas as idades, gostos, peculiaridades, esquisitices e há estilos de desenho tanto quantos é possível. Tem de tudo lá!

E mesmo que alguns autores tenham características semelhantes em seus traços, ainda assim é uma bobagem rotulá-los desta maneira!
Por exemplo, o Osamu Tezuka tem um traço muito diferente do Kazuo Koike, mas ambos levam o rótulo de mangá.

Um é extremamente estilizado, cartunesco, o outro, mais realista. Não faz sentido colocá-los como uma coisa só!

Por outro lado, o trabalho do Katsuhiro Otomo tem semelhanças com o trabalho do Joshua Middleton. Mas o primeiro carrega o estigma de mangá e o segundo não.

(Sim, eu sei que existem “subdivisões” naquilo que é chamado de mangá... como o soujo ou shounen, mas estas subcategorizações são mais sobre a temática do material do que a arte. Voltando...)

Um otaku agora diria que o Middleton é quem copia o “estilo” mangá e faz um “híbrido” – outro termo imbecil e sem sentido que tenta justificar artistas não japoneses que desenham com olhões e cabelos espetados.

Já outro otaku diria que o híbrido é o Otomo, que traiu a própria cultura e se “ocidentalizou” – mais um termo besta pra nossa coleção de termos bestas e sem-sentido, usado por aí pra tentar separar o mundo em dois tipos de desenho: o ocidental e o oriental... tem cabimento um absurdo destes?!?

Oras, as artes são assim! Sempre foram! Em todo o mundo! O trabalho de um artista influencia outro e isso se reflete nos desenhos, quadrinhos, pinturas... as influências fazem parte de todo artista!

CUIDADO: Nunca conte para um otaku que o “pai” do mangá, Osamu Tezuka, era fã de Walt Disney e que se influenciou nele para criar seu estilo e personagens! Muito menos conte para o indivíduo que o Astro Boy foi inspirado pelo Mickey... isso pode levar a criatura a ter um ataque de nervos!

E se, por um lado é bobagem usar a palavra mangá para criar um rótulo bizarro sobre os quadrinhos e autores japoneses, por outro lado é ainda mais estúpido usá-la como definição de gênero.
Voltando ao Houaiss (o dicionário, lembra?), gênero é a classe de estilo, técnicas ou natureza artística ou literária.

Traduzindo: É um termo usado para agrupar obras por estilo e/ou conteúdo.

Terror é um gênero. Ficção científica também. Mangá não.

Mangá é quadrinhos em japonês. Qualquer quadrinhos.

TÁ, MAS E O OTAKU?
Assim como mangá é a palavra japonesa para definir HQ, otaku significa fã. Fã de qualquer coisa mesmo.
Fã de videogames é gemu otaku, fã de computadores é pasokon otaku e fã de quadrinhos é manga otaku... Simples assim.

Mas, como com a palavra mangá, o termo otaku também foi distorcido e virou bizarramente sinônimo de fã de quadrinhos e desenhos animados japoneses. Mais do que isso: Fãs xiitas-radicais e revoltados, adoradores de quadrinhos e animações japonesas.

O otaku (o fanático, não o normal) não é uma pessoa que simplesmente gosta de quadrinhos orientais, ele personifica o radicalismo, acredita ser o soberano da sabedoria a cerca do assunto, não aceita ser contradito e não consegue conceber a ideia de que existam pessoas que não concordam com ele!

É desse tipo que eu tenho medo. Não é um medo físico – otakus são nerds radicais, mas ainda sim, nerds... fortes apenas nas palavras e na internet.

Não é físico, mas é medo... medo de imaginar uma pessoa que não consegue ver além de si própria, que se revolta e chega a ameaçar (à distância, claro) as pessoas, que não quer conhecer a própria história daquilo que gosta, não aceita que a verdade é diferente do que ele imaginou e muito menos aceita a existência de outros pontos de vista.

É uma pessoa pobre de espírito e de mentalidade limitada.

OBSERVAÇÃO: Aqui estou usando os otakus de pinhata, mas o mesmo vale pros fãs radicais-xiitas de qualquer coisa – futebol, super-heróis, quadrinhos nacionais, novelas, gatos etc.

Se você não consegue entender meu medo, lembre-se que essa radicalidade toda tem a mesma natureza das mentalidades que levam a todo o tipo de preconceito: racismo, intolerância filo-religiosa, homofobismo, xenofobismo...

E se analisarmos friamente, os quadrinhos são simplesmente uma forma de arte e entretenimento, algo feito para divertir, distrair... logo, o que justifica tanta revolta com aquilo que é diferente do que eles gostam?

Cada um tem o direito de gostar ou não de qualquer forma de comunicação, entretenimento ou arte. É uma escolha pessoal e ninguém vai te obrigar a consumir algo que não goste, oras!
Sei lá... talvez os otakus sejam mal-amados, não foram amamentados no peito ou caíram do berço quando crianças... mas não é normal este tipo de revolta!

E antes que alguém reclame, eu sei que estou usando o termo otaku de maneira genérica. Só pra deixar bem claro: Neste texto, em momento algum, estou me referindo a qualquer pessoa que goste de quadrinhos e desenhos animados japoneses, estou falando dos fanáticos radicais malucos que acham que isso é a essência da própria vida!

COMO RECONHECER UM OTAKU
É preciso muito cuidado na hora de identificar um espécime da família dos otakus fanaticus. Eles são especialistas em se camuflar entre os demais tipos de nerds, em especial entre os fãs normais dos materiais japoneses. Mas há como identifica-los:

- Otakus só falam de quadrinhos e animações japonesas e assuntos pertinentes a isso (videogames baseados neles, filmes baseados nas obras japonesas, a vida dos autores e coisas assim). Qualquer outro assunto pra eles é algo completamente estranho e fora do comum.

- Otakus não são necessariamente as pessoas que fazem cosplay. O otakus fanaticus, quando faz cosplay, passa a acreditar ser a encarnação do personagem em questão e se esquece completamente que o cosplay é só um hobby, uma brincadeira...

- Otakus são, comumente, animais solitários. Quando muito são vistos em companhia de outros de sua espécie ou camuflados em meio a fãs saudáveis. Podem ser identificados por tiques nervosos ou espuma no canto da boca quando veem algum desenho de seus personagens preferidos fora do model sheet – o que eles consideram uma heresia! O Goku só pode ser desenhado como o Toriyama faz!!!

- Apesar de serem comuns otakus fanaticus que carregam as características físicas da etnia japonesa, nem todos são assim. Os membros da espécie podem se camuflar com qualquer característica humana de etnia, nacionalidade ou classe social.

- Mesmo não sendo de ascendência nipônica ou similar, acreditam ser.

- O otakus fanaticus acreditam, falam e se comportam como se vivessem dentro de uma animação japonesa. Tentam pifiamente reproduzir as caras e poses dos desenhos e comumente acreditam ter algum tipo de poder super-humano ou habilidades ninja.
- Também acreditam que olhos grandes e cabelos espetados são características étnicas reais do povo do Japão.

- Conhecem meia dúzia de palavras nipônicas e já passam a se definir como fluentes em japonês.

- Ninguém normal gosta dele. Só outro otakus fanaticus.

O QUE FAZER AO ENCONTRAR UM DESTES OTAKUS-RADICAIS-REVOLTADOS?
Eu, infelizmente, já tenho uma certa experiência com este tipo de fanático... por isso vou dar algumas dicas de como lidar com eles:

1. Evite contato visual: Ao identificar um espécime destes, evite encará-lo de frente. Se o fizer, ele poderá achar que você é um ser semelhante e tentará contato. Em alguns casos, é provável que ele tente até mesmo a reprodução.

2. Nunca fale a verdade: Não, em hipótese alguma, não tente argumentar, usar a razão ou falar a verdade para um destes. Isso colocará sua vida e sua paciência em sério risco. Apenas siga as orientações encontradas passo nº 5.

3. Minta: Se um otaku começar a falar de alguma obra que você conheça, finja não conhecer. Se você demonstrar conhecimento, ele o entenderá como um dos seus e nunca mais te deixará em paz. Apenas siga as orientações do passo 5.

4. Não demonstre desprezo: Por mais que você odeio o que o otaku está falando, nunca demonstre. Se isso acontecer, ele se sentirá na obrigação de doutriná-lo e seu sofrimento será muito pior. Caso isso aconteça, não resista e siga as orientações do passo 5.

5. Não fale: Caso o contato seja inevitável, não fale nada. Absolutamente nada! Apenas acene com a cabeça, sorria discretamente e afaste-se aos poucos. Não corra porque isso poderá incitar instintos primitivos no espécime, fazendo-o partir para o ataque.

Seguindo estas dicas simples, você pode se livrar de horas tediosas de torturas e lógicas distorcidas.

Acredite em mim.

EM TEMPO: Eu não tenho nada contra quadrinhos e animações japonesas, nem contra as pessoas que gostam. Muito pelo contrário: eu gosto muito de diversos materiais japoneses! Aliás, eu cresci vendo desenhos animados japoneses (Zilion, Macross, Pirata do Espaço, Speed Racer, Patrulha Estelar e outros)! Só tenho medo de fanáticos doentes...

8 comentários:

  1. Lindo texto, Barata. LINDO!

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  2. Meu, falou tudo! Muito obrigado pela dica do passo 5! Haha...

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  3. Tatiana8:24 AM

    Fanáticos são assustadores em qualquer contexto. Uma vantagem dos Otakus e de outras subcategorias nerds é que geralmente o fanatismo resulta em clausura.
    Resolvi ler o Blog depois de sua fala em aula. Achei seu texto razoável e descontraído, mas tenho medo do preconceito que possa alimentar.
    Também fui procurar mais informações na Wikipedia (adoro wikis, fazer o quê?). Aparentemente, o próprio governo japonês distingue o mangá de outros gêneros de quadrinhos. Talvez valha a pena conversar com alguns japoneses (verdadeiros) para saber a razão. Pode ser um motivo semelhante à definição de cerveja na Bavária, que desconsidera como cerveja uma grande quantidade de bebidas alcoólicas similares,mas com outros ingredientes que não cevada, malte e água (ou seja, um motivo que só faz sentido para os bávaros, mas que foi a condição de rendição para a Prússia!).

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  4. A ideia não é alimentar nenhum preconceito... na verdade, o "preconceito" acaba sendo até, em parte, consequência do próprio comportamento do fanático que reage de maneira verbalmente agressiva ou com puro desdém quando encontra uma opinião diferente da dele (acredite, quase todos que conheci reagiram assim).
    E a reação das pessoas diante deste tipo de comportamento normalmente não é positiva.

    Também fui atrás de Wikis e outras fontes de informação antes de escrever o texto... os Wikis em português defendem a "distinção", mas wikis em inglês não. Claro, não pude ler wikis em japonês...

    Mas vendo, inclusive a questão em materiais franceses (lá eles lêem muito "mangá" também), não há esta distinção.

    Aparentemente, isso é coisa de brasileiro mesmo.

    Porém, claro, deve haver sim algum tipo de "corrente" japonesa que defenda essa ideia ou algo similiar... isso é nacionalismo. Acontece em todos os países.

    Os americanos defendem seus comics como algo diferente assim como brasileiros defendem seu "quadrinho nacional"... mas estas distinções continuam sendo bobagem e só servem pra alimentar ideias radicais...

    Até já escrevi sobre isso antes, aqui nesta coluna: http://www.quanta-conversa.blogspot.com.br/2000/10/bem-vindo-ao-dilema-03-por-ronaldo.html

    Mas, enfim... no final, são apenas rótulos que não servem pra nada.

    Saca?

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  5. Fernanda2:30 PM

    o mesmo serve para "Anime", que em japonês é só uma forma curta de "Animeechon" que é como se escreveria Animation em katakana, mas vai falar isso pra um desses radicais aí... te cortam a cabeça antes que você consiga falar "Anime" de novo.

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  6. Sukezo10:13 AM

    hahaha... "Mesmo não sendo de ascendência nipônica ou similar, acreditam ser." Essa realmente é muito triste. Os fanaticus, me dão medo também.
    Muito bom mestre, me divirto com seus textos e claro também aprendo com os mesmos, sempre que posso roubar internet dos outros eu corro aqui pra dar uma lida hahah! Abraços

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  7. Anônimo6:18 PM

    Ótimo texto, verdade absoluta.

    ps: estou gargalhando aqui.

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  8. Anônimo6:19 PM

    Ótimo texto, verdade absoluta.

    ps: to rindo muito aqui.

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