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terça-feira, 16 de maio de 2000

Por Extenso # 02 - 16/05/2011

Considerações sobre a criação de um personagem

Uma das etapas mais prazerosas da composição de uma história é o desenvolvimento de seus personagens. Sobre isso, há uma série de livros e autores muito mais competentes do que eu para falar a respeito. No entanto, gostaria de, modestamente, dividir com vocês minha experiência e referências sobre o assunto.

O que vem primeiro: personagem ou universo?

Aí está um pergunta interessante.
Por onde você deve começar a criar seu personagem?
Deve-se pensá-lo antes do contexto em que ele será inserido ou inseri-lo num contexto já pré-definido?

Tudo vai depender da abordagem que você pretende dar à história que quer contar.

Para compreender isso, vamos viajar um pouco e pensar sobre os elementos estruturais da narração.

A narração é (entre outras definições, mas vamos ficar com a que nos serve neste momento) a “exposição escrita ou oral de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos sequenciados” (Houaiss), ou seja, uma história contada ou a contação de uma história.

A narração tem uma estrutura: toda narração constrói-se a partir de tempo, espaço, ação e personagem. Não se conta uma história sem isso.

Pessoalmente, quando penso a criação de personagens, procuro pensar sua estrutura desta mesma maneira, olhando para estes elementos. Neste sentido, assim como a narração (que é o todo da contação da história), creio que personagem também seja:

1. TEMPO: pensar o personagem submetendo-o a uma referência temporal clara, da qual ele fará parte ou se destacará.
2. ESPAÇO: pensar o personagem submetendo-o a uma referência espacial clara, da qual ele fará parte ou se destacará.
3. AÇÃO: pensar o personagem como sujeito da ação. A composição de sua estrutura como “persona” precisa se integrar aos demais elementos da composição de maneira que o resultado produza no leitor uma sensação de identificação.
4. TEXTO/DIÁLOGO: pensar o personagem como falante e, neste sentido, enquadrar sua fala, seu texto, ao contexto de tempo, espaço e ação. A fala do personagem deve defini-lo, deve se integrar aos elementos acima descritos também de maneira a produzir no leitor uma sensação de identificação.

O êxito na criação do personagem está diretamente relacionado à questão da identificação que vai se estabelecer entre ele (personagem) e o leitor.

O leitor projeta-se a si mesmo nas personagens ao longo da leitura. Procura-se ali, nos gestos, nas falas, nas atitudes, nas histórias que esses personagens vivem. E, o que é mais curioso, procura-se, às vezes, com a intenção de não se encontrar lá. Ou seja, não lê querendo encontrar a si próprio, mas lê querendo se afastar de si mesmo, como uma forma de fantasiar o que ele poderia ser se não fosse quem é (ou de quem jamais seria, sendo quem é!).

Por isso a identificação é tão importante.

A estrutura da personagem tem que ser sólida, ter o que eu chamo de substância, contexto e proporcionalidade (vamos falar disso em outra ocasião!). A construção deve ser feita a ponto de estabelecer uma conexão com o receptor da mensagem (o leitor). Sem estes alicerces, o personagem se desfaz. Não transmite mensagem alguma, não é feito de nada.

E é importante que as coisas aconteçam pela razão certa!
Não se identificar com um dado personagem não significa que ele tenha sido mal construído.
Uma coisa é você não se identificar com um personagem porque essa ou aquela característica, ou esse ou aquele contexto, te agradam ou desagradam. Outra coisa é você não se identificar porque nada há ali de substância o suficiente para lhe causar empatia ou estranheza.

Então, voltando à pergunta inicial e à sugestão de que tudo depende da abordagem que você pretende dar, faça-se essa pergunta antes de tudo: você pretende contar a história de alguém dentro de um determinado contexto, ou você pretende exaltar o contexto por meio dessa ou aquela personagem?

Isso muda tudo na construção, na maneira com que você vai lidar com os elementos estruturais de tempo, espaço, ação e diálogo.

E não subestime seu leitor. Ele sabe exatamente o que está acontecendo!
É capaz de sentir essa presença (ou a falta) de substância na estrutura.

Neste sentido:
• Não simplesmente invente um contexto para encaixar seu personagem sem dar ao contexto a mesma profundidade que você deu ao personagem que criou. Se o contexto (tempo, espaço, ação) não estiver muito bem definido, a personagem vai ficar solta ali, feito uma pipa perdida no céu!
• Da mesma maneira, se a intenção é abordar o contexto, construa as personagens adequadamente, levando em conta suas características inseridas neste contexto que você pretende explorar.
• Dê voz ao personagem e ouça-o falar! Isso é muito importante! Uma das coisas que mais causa identificação entre leitor e personagem é sua voz. E por voz entenda a maneira no falar. A construção da personagem como falante. Repita os diálogos em voz alta e sinta se estão fluidos, condizentes com o contexto, com a personalidade que você deseja construir.
• O mesmo se dá visualmente. Construa uma imagem mental desse personagem e veja se ela se adequa a todo o resto da estrutura. Se há sentido nessa imagem, nos traços, nas cores. Não se esqueça de que você vai entregar essa mensagem textualmente, então seu texto tem que estar pronto para conseguir levar ao leitor todas as impressões mentais de sua imaginação.

Acho que dá pra começar por aí.

O assunto é longo e fascinante, então, certamente, vamos retomá-lo em outra ocasião.

De toda maneira, penso que essas primeiras impressões possam ajudar um pouco.

Obrigada a todos e até breve!

Marcela.

2 comentários:

  1. Estou fazendo um estudo mediante seus artigos aqui publicados, não pretendo escrever , pelo menos por enquanto, nenhum conto, mas pretendo adaptar uma criação realizada por outro autor, e para saber como a melhor maneira é entender toda a estrutura.
    Sendo assim só tenho a agradecer a sua iniciativa em dividir com toda a web um pouco dos seus conhecimentos.

    Abraço

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  2. O que costumo fazer é criar toda uma biografia tanto para personagem quanto para ambientação, então posso dizer, com base no passado de ambos, onde é que os "mundos" se encaixam para uma boa história.

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