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quinta-feira, 11 de maio de 2000

Condição Crítica por Alexandre Maki - Crítica Thor






Thor, dirigido por Kenneth Branagh, é um drama familiar de proporções épicas disfarçado de filme de ação/aventura que adapta mais um personagem dos quadrinhos do universo Marvel para o cinema.

Depois de introduzir os personagens humanos, o filme começa com Odin explicando o que é Asgard. Na hora achei um pouco estranho porque parecia que ele estava falando diretamente ao espectador. Mas depois percebi que na verdade ele estava dizendo tudo a Thor e Loki quando ainda eram crianças. É uma maneira breve e eficaz de resumir o que é Asgard e quem são e o que fazem os Asgardianos.

Também serve para racionalizar a mitologia dando-lhe um certo ar de ficção científica. Não sou muito a favor da racionalização ou da tentativa de "explicar" mitologias pois elas perdem muito do seu encanto e significado. Mas dentro do contexto do universo Marvel (ou de seus filmes) era necessário para estabelecer um paralelo com outros personagens mais mundanos e voltados à ciência como Iron Man (ou Homem de Ferro, como queira).

O flashback da batalha épica entre os Asgardianos e os Gigantes de Gelo parece mais alguma cena de The Lord of the Rings (não que isso seja uma coisa ruim). A outra batalha (protagonizada por Thor e seus amigos) é menor em escala mas pelo menos para mim foi a cena mais espetacular de todas. Aliás, o filme seria mais divertido se fosse exatamente isso: as aventuras de Thor e seus amigos nos Nove Reinos. Mas, no caso, era preciso estabelecer uma relação com a Terra para que fosse dada a deixa para The Avengers.

Este é um mal que tem permeado os filmes da Marvel. Claro que é muito bacana eles tentarem estabelecer no cinema algo que já existe nos quadrinhos: um universo compartilhado que abrange vários títulos. Mas com isso também vêm os aspectos negativos: carga da continuidade, problemas com acontecimentos paralelos, referências em demasia, fatos/acontecimentos/personagens que só serão utilizados plenamente em outra história etc. E o pior de tudo é quando estes aspectos são implementados em detrimento da trama, da história principal do filme. Com isso sempre temos a impressão de que estamos assistindo não a um filme mas a uma série de prévias para um filme de verdade que ainda está por vir (neste caso, The Avengers).



Todas as sequências épicas do começo foram apenas para estabelecer a personalidade de Thor para depois mostrar as consequências de seus atos impetuosos. Coincidência ou não, a premissa lembra muito a história de um outro deus do trovão: Susano-o (do shintoismo, a religião nativa do Japão). Na verdade, Susano-o era o deus da tempestade. Mas ele também era impetuoso e por desrespeitar sua irmã Amaterasu (deusa do sol) foi banido para a Terra onde realizou atos de bravura e assim conseguiu encontrar meios de reconciliar-se com ela posteriormente. Não vi em nenhum lugar alguém dizer oficialmente que esta foi a inspiração para o filme mas as similaridades são inegáveis.

Susano-o enfrentando o Yamata no Orochi (a serpente gigante de oito cabeças):


A parte terrena parece outro filme. Os personagens humanos (assim como os amigos Asgardianos de Thor) simplesmente são apresentados e... só. Sim, cada um deles tem uma função específica (interesse romântico, humor, exposição etc) mas não são desenvolvidos ao longo da trama. Você não tem uma boa idéia de quem são e do que querem de verdade; são apenas elementos num roteiro. Assim, o romance (por exemplo) não é interessante, crível ou relevante. Simplesmente está lá como "motivação" mas você não sabe (nem sente) muito bem por quê.

Jane Foster (interpretada por Natalie Portman) não é uma enfermeira como nos quadrinhos originais. Aqui ela é uma cientísta (astrofísica) que por algum motivo dedicou a vida a estudar fenômenos que (mesmo ela não sabendo) têm a ver com o Bifröst (Ponte do Arco-Íris) etc mas... por quê? Ela "precisa" ajudar Thor... por quê? Eles se apaixonam... por quê? Alguns podem dizer "Não é preciso ter motivo para se apaixonar" e é verdade. A não ser que seja um elemento fictício num roteiro, aí precisa. É necessário ter um motivo para o espectador se importar ou então não haverá uma conexão emocional e nada do que acontece importa. Eu não me importei com Jane Foster a não ser pelo fato de que era interpretada por Natalie Portman.

Natalie Portman fala (em Inglês) sobre Jane Foster:


O humor foi algo que delineou claramente a mudança no tom da história (do primeiro para o segundo ato) e, pelo menos para mim, de uma maneira negativa. Darcy Lewis (interpretada por Kat Dennings) é o típico "comic relief" de filmes de Hollywood. O mesmo tipo de atitude irritante, soltando piadas sem graça em momentos inoportunos, fazendo referências a coisas "modernas" aleatoriamente (iPod, Facebook etc) numa tentativa de envolver o público mais jovem.

Fora isso teve o elemento "peixe fora d'água" que eu absolutamente abomino. Igual a quando alguém do passado viaja no tempo, vem para a época contemporânea, vê uma tv e diz coisas do tipo "Pessoas aprisionadas dentro de uma caixa? Que magia nefasta é essa?". Odeio esse tipo de coisa. Por sorte, isso (mais a Darcy e a comédia pastelão) não teve tanto destaque quanto imaginei que teria. Mas está lá.

Har har har:


No geral, o segundo ato de Thor é um pouco comprido demais. A impressão que dá é que o filme todo parece um grande e interminável segundo ato. Você fica esperando por um terceiro ato com algo ainda mais grandioso do que o primeiro e o segundo mas... nada acontece. Parece que o terceiro ato de verdade (tanto de Thor quanto Captain America) será mesmo The Avengers.



A extensão do poder de Thor e principalmente de Mjölnir está muito bem representada no filme. Os efeitos visuais e sonoros conseguem transmitir todo o peso e força das marteladas (algo que é um pouco mais difícil numa mídia estática e muda como os quadrinhos). Já a fotografia, ângulos e enquadramentos ajudam a distinguir os cenários e estabelecer onde os personagens estão mas nem precisava. Mesmo assim, a grandiosidade de Asgard é bem-vinda.

A direção de Branagh em Thor é eficaz. Só que em nenhum momento você pensa "Ah! Este realmente é um filme do Kenneth Branagh!". Faltou um pouco da dramaticidade exagerada (quase operática) que ele deu a alguns de seus filmes como Mary Shelley's Frankenstein ou, principalmente, Henry V e Hamlet.

Resumindo, Thor é um filme divertido. Apenas não espere um drama shakespeariano.

OBS: assim como em outros filmes da Marvel, este possui uma cena após os créditos finais. Por isso, não saia correndo da sala.

Trailer 1:


Trailer 2:


Featurette - Filming on location:


Little Thor:

Um comentário:

  1. Gostei do filme. É como o Campos costuma dizer:

    "Filmes,Quadrinhos,Televisão é tudo feito para o público médio"

    Me orgulho de fazer parte desta massa iletrada que consegue entrar no cinema se desligar do dia a dia e acordar em Asgard, não vendo nunca os fios que animam os fantoches.

    PS: Quanto a Susano-o, Joseph Campbell explica.

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