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segunda-feira, 14 de julho de 2014

ENTREVISTA – ROGER CRUZ FALA SOBRE SEU TRABALHO NO ÁLBUM QUAISQUALIGUNDUM!



QUANTA - DE ONDE VEIO A IDEIA DE TRABALHAR O UNIVERSO DO ADONIRAN? AS MÚSICAS DELE SÃO BEM NARRATIVAS, CONTAM HISTORIAS... SEI QUE VOCÊ SEMPRE ESCUTOU AS MÚSICAS DELE, QUANDO VOCÊ FAZIA ISSO PENSOU NAS HISTÓRIAS DESSAS MÚSICAS DE MANEIRA GRÁFICA, IMAGINANDO AS CENAS?

ROGER CRUZ - Conheço as músicas do Adoniran desde moleque, quando minha mãe ouvia e cantarolava as músicas dele que ouvia no rádio. Nesta época, achava apenas engraçadas pela maneira como ele cantava e pelas palavras que ele inventava. Depois, mais velho, percebi que eram muito mais do que isso. Percebi que ele contava histórias sobre pessoas muito parecidas com muitas que eu conhecia nos bairros onde cresci.

Mas foi por volta de 2009, que veio a idéia para uma HQ baseada na Saudosa Maloca, a minha música predileta do Adoniran. Não me lembro exatamente como veio a idéia, mas acho que foi durante uma conversa com a minha esposa sobre uma playlist de sambas do Adoniran que eu estava ouvindo naquele dia. E, durante essa conversa, inspirado pelo rico universo vivido ou imaginado pelo Adoniran, me perguntei quem teriam sido "Eu, Matogrosso e o Joca".

Seguindo por essa linha, aí sim comecei a visualizar as cenas, os personagens e suas histórias.

Quando as idéias se encaixaram, imaginei a cena com o "Eu", deitado e olhando para um céu estrelado enquanto as casas iam passando diante dos seus olhos.

Foi com essa imagem que o projeto começou.

Aí, usei o mesmo processo criativo para trabalhar com as outras músicas que serviram de inspiração para as outras HQs do álbum.

As HQs não são adaptações das músicas do Adoniran; são histórias imaginadas a partir das letras das músicas do Adoniran.

São homenagens à obra do Adoniran, ele que soube retratar tão bem esses dramas cotidianos vividos por gente humilde em São Paulo; dramas idênticos a tantos outros vividos em outras cidades no Brasil.

QUANTA - ESSA IDEIA DO ÁLBUM NASCEU JÁ COM A INTENÇÃO DE TRABALHAR COM O DAVI OU ELE ENTROU EM UM MOMENTO POSTERIOR?

ROGER CRUZ - Lá em 2009, quando escrevi a primeira HQ, eu pretendia desenhar o álbum. Em 2010, finalizei 3 ou 4 páginas mas nunca fiquei totalmente satisfeito com o resultado e ainda não sabia o que fazer com aquela HQ inspirada na Saudosa Maloca.

Deixei de lado por um tempo e continuei com os trabalhos que pagavam as contas.

Aí, conversando com os amigos do Dead Hamster, coletivo do qual faço parte, descobri que o Davi também gostava das músicas do Adoniran.

E, não só conhecia como já tinha tocado Adoniran no grupo de samba do qual fez parte na adolescência em Guararema.

Comentei e compartilhei as primeiras páginas e o Davi curtiu muito a idéia do projeto mas a conversa ficou por aí.

Algum tempo depois, quando vi o que o Davi estava fazendo com aquarela e guache, resolvi arriscar e perguntar se ele estaria interessado em fazer a arte e ser co-autor do projeto.

Ele aceitou e começamos a conversar sobre as próximas HQs do álbum, Davi sugeriu inscrever o projeto no ProAC e a Nádia Mangolini entrou na equipe fazendo a produção.

Fomos contemplados com o apoio, escrevi os outros roteiros, o Davi produziu as artes, tivemos alguns problemas com detentores de direitos sobre as músicas, o que atrasou bastante o lançamento, mas, não tivemos problema com herdeira do Adoniran que foi ótima com a gente (Obrigado, Maria Helena).

Convidamos o Sidney Gusman e o Emicida para fazerem prefácio e texto de orelhas e eles escreveram textos incríveis.

Agora, o álbum está pronto para o lançamento aí na Quanta!

Tô muito orgulhoso desse projeto!

QUANTA - VOCÊ TRABALHOU A NARRATIVA DAS HISTÓRIAS JUNTO COM O DAVI... COMO FOI O PROCESSO DESSAS PÁGINAS?

ROGER CRUZ - O roteiro do Quaisqualigundum foi o primeiro que escrevi para outra pessoa desenhar. Quando escrevo meus roteiros, faço o texto junto com o esboço da cena.

E, em muitos casos, gosto do esboço e o uso como base para a finalização.

No começo, tentei fazer o roteiro apenas descrevendo as cena para não influenciar o Davi com o meu desenho. Mas estava levando muito tempo e eu poderia passar a mesma idéia com um esboço rápido.

Acabei optando por fazer o roteiro com esboço de cena porque eu tinha algumas idéias bem específicas para a composição e narrativa de algumas sequências.

Mas em outras sequências, o Davi mudou o que achou necessário e o resultado final é fruto de muitas idéias trocadas durante o processo.

Sobre a arte, o Davi é um craque das cores e da estilização.

O que ele fez em cada uma das páginas, ajudou muito a contar as histórias e os personagens ganharam vida no traço dele.

Ele criou lindas texturas e composições com aquarela e guache.

Os originais são de cair o queixo!

Pretendemos fazer uma exposição com as artes do Quaisqualigundum em breve e avisamos quando tivermos a data confirmada.

QUANTA - O ROTEIRO DAS HISTÓRIAS MUDOU MUITO DURANTE TODO O PROCESSO? TODO PROJETO DESSE TIPO PASSA POR MUITAS MUDANÇAS... AS HISTÓRIAS PODEM MUDAR BASTANTE, MAS O CONCEITO CENTRAL, A TÔNICA DAS HISTÓRIAS MUDOU MUITO DA IDEIA ORIGINAL?

ROGER CRUZ - Não mudou muita coisa, não.

A primeira história é praticamente a mesma que a escrevi em 2009.

Sobre as outras, escritas mais recentemente, algumas tiveram partes reescritas mas sem alterar o conceito central que já estava definido.

QUANTA - EM TERMOS DE NARRATIVA, COMPOSIÇÃO DE CENA... VOCÊ TINHA ALGUM DIRECIONAMENTO QUE PENSAVA EM USAR COMO REFERÊNCIA, ALGUM ARTISTA DE QUADRINHOS, ILUSTRAÇÃO OU FILME?

ROGER CRUZ - As maiores referências foram o Adoniran, suas músicas, os lugares por onde ele andava e a cidade que o inspirava.

QUANTA - A ARTE DO ÁLBUM PARECE MUITO PENSADA... PARECE TER UMA DIREÇÃO DE ARTE MUITO BEM CUIDADA. VOCÊ E O DAVI DISCUTIRAM MUITO OS TONS DE CENA DE CADA HISTÓRIA OU SEQUENCIA?

ROGER CRUZ - Esse cuidado que é percebido nos tons escolhidos para cada história é mérito do Davi.

Ele escolheu a paleta de cores para cada HQ, definiu muito bem as passagens de tempo e o contraste de cores entre histórias alegres e tristes.

Sou suspeito pra falar, mas a arte ficou espetacular.

QUANTA - QUAL SERIA UM PRÓXIMO COMPOSITOR PRA SE BRINCAR COM UMA NARRATIVA GRÁFICA?

ROGER CRUZ - Não foi nada fácil prestar essa homenagem ao Adoniran.

Se não fosse o apoio financeiro, talvez esse álbum não teria rolado.

Tivemos uma série de problemas e atrasos tentando conseguir, e não conseguimos, os direitos das músicas que serviram de inspiração para as HQs.

Mas conseguimos os direitos de uso de nome e imagem do Adoniran, gentilmente cedidos pela Maria Helena, a filha dele.

Ter pelo menos autorização para usar nome e imagem era muito importante porque queríamos deixar claro que era sobre a obra dele que estávamos falando, que a inspiração vinha dali.

Mas aprendemos muito com essa experiência.

E, por enquanto, vou focar em terminar os projetos que já comecei, como Gutigutz e a continuação do Xampu.


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