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segunda-feira, 14 de julho de 2014

ENTREVISTA – OCTAVIO CARIELLO FALA SOBRE SEU TRABALHO NO ÁLBUM PORTAIS!



QUANTA - SEI QUE VOCÊ ESCREVEU OS PRIMEIROS TRATAMENTOS DESTE ROTEIRO HÁ ANOS... QUANTO TEMPO ENTRE CRIAR A HISTÓRIA, O CONCEITO, ESCREVER O ROTEIRO E PUBLICAR O MATERIAL?

OCTAVIO CARIELLO - "Portais" tem a ver com um projeto maior, um universo que envolve várias mídias e conta uma de minhas versões do futuro da humanidade. O conecito por trás de "Portais" aponta pras escolhas de cada um diante das circunstâncias que fogem do controle; e como isso muda o rumo de nossas vidas. O primeiro tratamento foi escrito em três semanas, com bic num caderno pautado, muito antes da popularização dos computadores pessoais. Suas versões posteriores também não tomaram muito tempo pra serem finalizadas (desde o segundo tratamento, em editores digitais de texto). Três fases foram mais demoradas: a pesquisa (por incrível que pareça, fiz MUITA pesquisa de base pra confecção da história e das línguas), a criação das línguas usadas por alguns personagens (além da criação dos alfabetos e suas respectivas fontes digitais) e o letreramento; achar a forma mais apropriada pra distribuir os balões e recordatórios em cada quadro, alterando os textos "originais" dá um trabalhão!

É, escrevi o primeiro tratamento do roteiro de portais há uns anos. Antes mostrar pra alguém, ele sofreu várias mudanças. Uns três anos antes do Pietro assumir a arte, Greg Tocchini ensaiou fazer parte do projeto e deixou duas páginas prontas (que foram incluídas em seu artbook). Pietro levou alguns anos produzindo as 28 primeiras páginas e uns três meses pra finlaizar o álbum, depois que o financiamento via Catrse foi concluído.

QUANTA - IMAGINO QUE MUITA COISA MUDOU NESSE TEMPO... O QUE DE MAIS IMPORTANTE VOCÊ ACHA QUE MUDOU NA HISTÓRIA?

OCTAVIO CARIELLO - A exclusão de uns personagens, o aproveitamento de certas falas desses excluídos na boca dos que ficaram e, é óbvio, como em todo trabalho criado em equipe, a melhor adequação entre texto e arte finalizada, entre narrativa descrita e narrativa exposta... Os primeiros tratamentos previam 120 páginas de HQ; a redução para 78+1 deixou tudo mais enxuto.

QUANTA - A GENTE SEMPRE CONVERSOU MUITO SOBRE AS LIGAÇÕES ENTRE O ESTÁGIO INICIAL DE CRIAÇÃO DE UM MATERIAL E AS MÚSICAS QUE ESCUTAMOS... A INFLUÊNCIA DE MÚSICAS ESPECÍFICA, BANDAS, EM SEU TRABALHO SEMPRE FOI UMA COISA QUE ME CHAMOU ATENÇÃO. QUANDO ESTAVA LENDO A PUBLICAÇÃO PORTAIS, ME VI ESCUTANDO UM ÁLBUM DO RUSH... ISSO TEM A VER?
VOCÊ IMAGINAVA UM TIPO DE TRILHA SONORA ENQUANTO CRIAVA OU DEFINIA O DESIGN DE CADA SEQUENCIA DA HISTÓRIA?


OCTAVIO CARIELLO - A banda canadense está entre minhas preferidas e isso deve ter influenciado, consciente ou inconscientemente, na criação da obra, sim! Mas não podemos esquecer que, assim como uma peça musical, que, em sua maioria, precisa da participação de vários artistas pra ser completada, em "Portais" temos o gosto musical do Pietro, que é bem diferente do meu, a influenciar o clima final das páginas e emprestar o toque concreto na arte que deu cara a tudo.

Enquanto escrevia o roteiro, pensava em climas e ritmos que tinham a ver com coisas bem diferentes pra cada página: numas, um solo jazzístico de violoncelo, noutra, um rife de guitarra, numa terceira, um movimento de uma obra erudita, um coro de japonesas, um acordeão "tanguero" ou outro sertanejo....

QUANTA - ME LEMBRO DE VER DEZENAS DE ESTUDOS DE PERSONAGENS E CENÁRIOS PRODUZIDOS POR VOCÊ PARA PORTAIS, COMO FOI PASSAR O TRABALHO DE ARTE PRA OUTRO ARTISTA? VOCÊ SENTIU QUE ESTAVA JOGANDO O FILHO NO MUNDO?

OCTAVIO CARIELLO - Eu senti que o filho tinha possibilidade de andar com as próprias pernas, sim! Hahahahahaha!

Já faz tempo que venho escrevendo roteiros pra outros desenharem e sempre me surpreendo positivamente com a leitura diferente que cada artista faz daquilo que imaginei. Hoje, mais do que nunca, evito criar expectativas além de esperar que o resultado seja uma boa narrativa. Trabalhar com o Pietro é um grande prazer; ele tem uma seriedade incrível e costuma se preocupar em detalhes sobre a melhor maneira de mostrar as coisas acontecendo. Conversamos muito durante todo o processo, discutindo possibilidades e trocando ideias quanto aos melhores enquadramentos, qual a melhor paleta nessa ou naquela sequência. Além de ser um amigão, ele é um grande profissional.

QUANTA - SEMPRE SENTI UMA INFLUENCIA GRANDE DO SEU TRABALHO NA ESTRUTURA DO PIETRO... MAS, TEVE MAIS ALGUMA QUESTÃO QUE FEZ COM QUE VOCÊ CONVIDASSE ELE PRA ESSE PROJETO?

OCTAVIO CARIELLO - Na verdade, trabalhamos em alguns outros projetos (Dura Lex Sed Lex foi publicada na "Truko1" e o "primeiro" capítulo de "TheGroup" deve sair na Truko3) e o resultado sempre me deixou animado. Combinamos que um dia ainda faríamos algo grande juntos. Quando ele descobriu que "Portias" estava pronto e "encostado", ele me pediu permissão (hahahahaha) pra tentar desenhá-lo. Eu gostei da ideia desde o começo!

QUANTA - SEUS ROTEIROS SEMPRE TEM UMA CARACTERÍSTICA DIFERENTE DO QUE É FEITO HOJE EM DIA.. E NA VERDADE DE UNS 20, 30 ANOS PRA CÁ. VOCÊ NÃO FAZ CERTAS CONCESSÕES QUE HOJE SÃO PRATICAMENTE REGRA AO SE ESTRUTURAR UM ROTEIRO. POR EXEMPLO, EXISTE NOS SEUS ROTEIROS A ESTRUTURA DE “PREPARAÇÃO”, DE CONSTRUÇÃO DO UNIVERSO... VOCÊ VAI APRESENTANDO OS PERSONAGENS, OS CONCEITOS E PLOTS AOS POUCOS, MUITAS VEZES O LEITOR FICA “PERDIDO” NAS PRIMEIRAS PÁGINAS.. NÃO É COMO HOJE EM DIA, QUANDO VOCÊ JÁ TEM QUE APRESENTAR TUDO, EXPLICAR TUDO NAS PRIMEIRAS 5, 6 PÁGINAS.

ESSA “PREGUIÇA” DO LEITOR EM TER QUE ENTENDER TODO O CONTEXTO NAS PRIMEIRAS PÁGINAS PREJUDICA MUITO ESSE TIPO DE “PREPARAÇÃO”. PORQUE VOCÊ INSISTE NESSE TIPO DE ESTRUTURA?


OCTAVIO CARIELLO - Acho que é preciso tentar criar HQs que empreguem formas narrativas que não sigam os cânones da indústria, não porque esses cânones sejam ruins, mas porque a linguagem das HQs apresenta tantas possibilidades bacanas que vem sendo deixadas de lado ou não foram exploradas! Minha preocupação com a narrativa vai desde a virada de página até a mais apropriada distribuição dos balões e sua relação com as imagens subjacentes. Não tenho qualquer vontade de fazer algo novo, realmente inédito; gosto de brincar com a linguagem das HQs e usar de meu conhecimento literário pra criar narrativas instigantes. Trabalhar com alguém que tenha uma pegada como a do Pietro amplia a possibilidade de atingir públicos que não seriam naturlamente atraídos.

QUANTA - VOCÊ TEM ALGUM MÉTODO PRA ESCALETAR A HISTORIA? FALA UM POUCO DO SEU PROCESSO DE ESTRUTURA DE ROTEIRO.

OCTAVIO CARIELLO - Em sempre parto de uma ideia mãe, o que eu gostaria que o leitor/a leitora concluísse ao final da obra, algo como "pode até doer, mas o destino pode ser mudado; acreditar no contrário é arranjar desculpas esfarrapadas pra não se responsabilizar". Depois penso no formato de saída: vai ter dez páginas coloridas. Com isso em mente, chega a hora de decidir a quem desejo atingir e qual gênero vou usar pra atingir esse público. Mesmo quando estou escrevendo ficção-científica, uso minha realidade como base pra criação dos cenários e dos personagens. Estabelecidos o local e a data dos eventos, corro pra pesquisa: procuro imagens e textos que me ajudem a criar situações que tenham alguma coerência, alguma verossimilhança; chego a ler centenas de páginas de material teórico pra escrever dez páginas de roteiro. Com o material de referência em mãos, estabeleço quais as ações mais interessantes pra contar a história e brinco, às vezes, de alterar a ordem linear da narrativa, apresentando o meio antes do começo, ou até o começo no fim! Hahahaha!

QUANTA - NA CONSTRUÇÃO DOS PERSONAGENS, EXISTE ALGUM PONTO QUE VOCÊ É MAIS EXIGENTE? EXISTE ALGUM ASPECTO NA ESTRUTURAÇÃO DOS PERSONAGENS QUE VOCÊ VÊ QUE OUTROS AUTORES NÃO FICAM MUITO ATENTOS E VOCÊ ACHA ESSENCIAL?

OCTAVIO CARIELLO - Os personagens podem ser profundamente explorados, no caso de HQs com um pendor para o romance, ou mais esboçados, naquelas mais aparentadas aos contos ou às novelas, mas eu me preocupo particularmente com as questões narrativas que melhor se adequem a explicitar esse ou aquele aspecto da parte da história que relamente chega até as mãos de quem vai ler. Um passo atrás, acho muito importante a troca de ideias com o parceiro pra que nada fique de fora, nenhum detalhe seja negligenciado. O que eu acho essencial é a relação que os personagens estabelecem entre si e com os ambientes que ocupam, e lamento perceber que há muitos Quadrinhos em que essa relação não é levada tão a sério.

QUANTA - PORTAIS É UM PROJETO BEM GRANDE... O QUE VEM POR AÍ? VOCÊS PLANEJAM CONTINUAR A SAGA?

OCTAVIO CARIELLO - Sim! Embora "Portais" devesse funcionar isolado, há muita porta deixada aberta, muita possibilidade de futuras narrativas que "complementem" essa aventura ou que explorem eventos antes e depois daqueles mostrados no álbum. Pietro e eu estivemos conversando, antes mesmo de publicar "Portais", sobre pelo menos mais um álbum com alguns desses personagens. Como "spin-offs", tenho esboçado um álbum apenas com Derenian e outro que estou desenhando há anos sobre a tropa 22, de onde saiu Hugo. E venho publicando em inglês, em minha página no Wattpad, um romance de ficção-científica que tem tudo a ver com "Portais": "Lunatics".

Muito provavelmente, meu próximo trabalho com Pietro seja o primeiro volume de uma série de álbuns de HQ relacionadas com magia...

http://cucomaluco.wordpress.com/


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