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quinta-feira, 20 de junho de 2002

TXT QUADRINHOS - TEXTO # 4 por DANILO BEYRUTH

Sobre Estilo

Estilo é uma coisa complicada.

Grandes quadrinistas podem ser identificados a partir do desenho de alguns quadros, outros ainda você reconhece de longe, simplesmente pela diagramação da página, pelo estilo narrativo.

Já ouve uma época em que eu era muito preocupado com isso. Qual é o meu estilo? Como é que eu quero que o meu estilo seja? Parecido com o estilo de qual dos meus ídolos?

Queria desenhar parecido com o John Byrne, que fazia X-Men na época e tinha uma anatomia super precisa (até precisa demais) e que não economizava nos detalhes. Ele era (é) um discípulo de Kirby que respeitava a métrica do desenho. Também queria ser como o Frank Miller do Demolidor, até que fui percebendo que o que eu gostava mesmo era da finalização do Klaus Jason. Até hoje tenho que parar para observar o trabalho dele toda vez que sai alguma coisa nova.

Mas essa fase de imitação passou, e cedo percebi que emular o estilo de outra pessoa seria como tirar água de pedra, uma tarefa no mínimo frustrante. Não que a emulação não tenha seus méritos didáticos, mas se você só ambicionar desenhar igual a alguém, no máximo vai conseguir ser uma cópia pálida. Uma versão piorada que sempre vai perder para o original.

Nessa época eu ainda desenhava sem muita noção da parte técnica da coisa, colecionava folhas avulsas de lápis aos quilos e foi só com a decisão, anos depois, de fazer HQ que realmente tive que pensar em finalizar. E ai você tem que decidir qual material você vai usar: pincel, caneta, pena, etc.

Ou não. Tem gente que usa todos, um pouco de cada. Mas geralmente tem um que é o prioritário, o principal. No meu caso, o pincel. Especificamente o Raphael 8404 número 1.

Desenhistas mais talentosos que eu certamente conseguem trabalhar com uma gama mais aberta de materiais, ou com qualquer coisa que passe pela frente, mas eu gosto especificamente desse pincel.

Quando estou com o Raphael 8404 número 1 tenho segurança de conhecer o material e saber como extrair dele o que eu quero, e essa familiaridade é muito importante pra mim, porque eu conto com ela pra poder finalizar com tranqüilidade, que se traduz em velocidade, que por sua vez quer dizer volume de trabalho.

O que isso tem a ver com estilo?
Para mim, tudo.

Percebi que, para ser um autor de quadrinhos que escreve e desenha as suas próprias histórias (sem falar em letrar, editar e layoutar), teria que trabalhar razoavelmente rápido se quisesse manter um ritmo de produção. E manter ritmo, produzindo material novo é extremamente importante se você quer se estabelecer no mercado.

Pra ter velocidade você tem que ter confiança na sua capacidade, tem que poder confiar no seu estilo. E não é desenhar qualquer coisa não, tem que aprender anatomia, tem que entender perspectiva, tem que treinar até dominar a técnica. E ai, quando vc estiver bom, vão começar a aparecer cacoetes e soluções próprias suas, uma palheta de tipos de traço que você vai começar a fazer sem nem pensar e que as pessoas vão associar ao seu trabalho.

Na minha humilde opinião, seu estilo tem que ser o melhor jeito que você consegue desenhar ao mesmo tempo que mantém um ritmo firme de produção. É o equilíbrio da técnica com a velocidade. Sempre tentando aprimorar, delapidar e eliminar erros.

O seu estilo te escolhe, e não você a ele.

4 comentários:

  1. Essa é uma das coisa que sempre me incomodam e tira a minha paz. Essa importância que dou em ter uma "RG" artístico. Mais é muito bom saber que isso é uma preocupação que acontece ou já aconteceu com todos. Dar esse tipo de relato para quem busca esse Santo Graal, deixa menos árdua e cansativo a busca!

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  2. a frase final talvez seria o que estava procurando, muitos eu acho não é... extrair um pouco de cada artista que goste, e fazer com que seu traço sua pintura fique o mais comum pra voce, quando digo comum, é que vc pega o lapis e sai com naturalidade, do seu jeito,
    abçs quanticos!

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  3. Muito bom texto. "seu estilo tem que ser o melhor jeito que você consegue desenhar ao mesmo tempo que mantém um ritmo firme de produção." É uma frase que define o meu momento. Estou procurando esse equilíbrio na minha produção.

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  4. Gostei muito da sua afirmação final Beyruth. Na medida que temos que encontrar soluções gráficas para nossos trabalhos, mediante todas as outras preocupações do cotidiano, temos que desenhar de uma forma que funcione para o mercado e que quando deitarmos a cabeça no travesseiro, dê para dormir, sem pensar tanto nos erros que fizemos para entregar um trabalho no prazo.

    Aproveitando a deixa, sou fã do seu trabalho e vi uma palestra sua na Biblioteca Viriato Correa, um ano atrás.

    Abração e sucesso.

    http://jdavidlee.wordpress.com/

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