Banners

terça-feira, 13 de junho de 2000

Por Extenso # 3 - 13/06/2011

ASSUNTO e PESQUISA no processo de composição
O que é o ASSUNTO?
É o objeto DIRETO do trabalho.

·    É mais do que somente o tema, mas a redução deste tema a algo específico, sobre o qual o texto irá discorrer. Em outras palavras, o tema é genérico, o assunto é específico!

Ex: tema = amor, assunto = traição ou amor à primeira vista.

·    Quanto mais seguro o autor está do assunto, mais fácil e agradável será a catarse, o desafogo;

(Catarse: purificação; Na medicina/psicologia: método de purificação mental que consiste em chamar para a consciência os estados afetivos recalcados, com a intenção de aliviar o recalcamento; exclusão inconsciente de ideias, sentimentos e desejos)

Como escolher o assunto?
De modo geral, chegamos ao assunto de duas maneiras: nós o escolhemos ou ele nos escolhe. De uma forma ou de outra, o importante é que o resultado de nosso trabalho (o texto) terá maior ou menor êxito dependendo de nossa relação com o assunto.

Por relação entenda o nível de comprometimento que estabelecemos com o objeto de nosso trabalho, de maneira que tenhamos sobre ele controle e conhecimento proporcionais à ênfase e profundidade que o texto exige.

A escolha do assunto interfere na qualidade do texto?
Não. Posso discorrer sobre qualquer coisa, de qualquer forma, e em qualquer profundidade, dependendo, única e exclusivamente, da finalidade do texto. Neste sentido, o assunto não interfere na qualidade, mas pode dar o tom do discurso. Posso fazer um texto de qualidade excelente para um assunto raso, ou tratar de forma rasa um assunto complexo. Ou ainda tratar de forma profunda um assunto profundo, mas com um texto de alta acessibilidade (de fácil compreensão para o leitor).

Devemos ter cuidado na condução do assunto ao longo da narrativa, porque o assunto é, geralmente, o objeto centrar da trama. Podemos perder o “fio da meada”, quando as tramas secundárias mudam o foco do assunto, transformando uma ideia já concebida, numa outra coisa.

Ou seja, não se pode “mudar de assunto” no meio da história!
Isso denota falta de controle do autor sobre a narrativa! Erro grave!

Como tratar o assunto de maneira a conhecê-lo profundamente a ponto de controlá-lo completamente?

De maneira geral, escrevemos sobre o que aprendemos ou sobre o que vivemos.

Mesmo a ficção que inventamos projetará, em seu argumento, algo que nos impregnou seja de dentro para fora, seja de fora para dentro. Neste sentido, só existem duas formas de sermos dados a conhecer um assunto: por experiência pessoal ou por aprendizado.

Nossas experiências pessoais (de vida) levam-nos à construção de nosso “conhecimento emocional”. Quanto mais profundas as nossas experiências neste sentido, mais profundidade seremos capazes de imprimir ao nosso assunto “emocional”.

Nosso aprendizado leva-nos à construção de nosso “conhecimento material”. Quanto mais profundo nosso aprendizado neste sentido, mais profundidade seremos capazes de imprimir ao nosso assunto material.

A PESQUISA, item fundamental na construção do domínio do assunto pelo autor, pode se dar nos níveis do conhecimento emocional e no conhecimento material. De um jeito ou de outro, a pesquisa é IMPRESCINDÍVEL.

A pesquisa pode ser objetiva ou subjetiva.

Objetiva quando lidar com um assunto concretamente constituído.

Subjetiva quando lidar com um assunto abstratamente constituído.

O autor pesquisa, antes, dentro de si mesmo (subjetivamente) em sua experiência emocional e sua vivência material, para depois se lançar à construção dos conhecimentos externamente (objetivamente).

Por exemplo, quando evocamos uma emoção para construirmos um personagem, ou para descrevermos uma ação dramática, estamos fazendo uma pesquisa subjetiva, pois evocamos o conhecimento emocional de maneira involuntária. Em outras palavras, este conhecimento se manifesta no texto, tal como uma aparição, sem que o autor tenha que se esforçar muito para isso. Quando a emoção não existe, a necessidade de construí-la leva o autor à pesquisa objetiva. A emoção é transformada em coisa e submetida à experiência, para se constituir como conhecimento adquirido, o qual será, então, evocado no ato da composição.

Ou seja, tudo aquilo que o autor desconhece deve ser, ou vem a se tornar, objeto de pesquisa!

ASSUNTO e PESQUISA estão intimamente relacionados, direta ou indiretamente, objetiva ou subjetivamente.

Lembre-se, no entanto, de que o ideal é você trabalhar o assunto e a pesquisa ANTES de começar a composição efetivamente. O assunto e a pesquisa são itens que se enquadram na fase de INVENÇÃO do processo de composição e influenciam MUITO neste processo, podendo mudar o curso de uma ideia ou da execução dessa ideia.

Fica então a dica: esgotem o assunto e a pesquisa antes de começar a escrever. As chances de ganhar desenvoltura e naturalidade na execução do trabalho aumentarão substancialmente. É mais fácil discorrer sobre o que se domina, pois a fluência e a naturalidade que o domínio do assunto proporcionam reproduzem-se na fluência e naturalidade com que você construirá sua narrativa e seus personagens.

E lembrem-se: o assunto não precisa ser física nuclear. O assunto é, antes de tudo, qualquer coisa sobre a qual você deseja escrever. O que vale aqui é o quanto você deseja mergulhar no seu assunto. Se deseja ser raso, seja raso. Se deseja ser profundo, seja profundo. O importante é não enganar o seu leitor, subestimá-lo.

Abraços a todos e até a próxima!

Um comentário:

  1. Ótimo texto. Realmente uma mínima pesquisa me ajudou a evitar gafes em pequenos detalhes que poderiam arruinar a experiência do leitor.

    ResponderExcluir