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terça-feira, 13 de março de 2007

Bem vindo ao Dilema # 08 - 13/03/2012


MONEY FOR NOTHING

Imagine a seguinte historinha:
Uma mulher entra em uma loja de DVDs, pega um filme com uma etiqueta marcando R$ 19,90.
Ela vai ao balcão e diz ao atendente que pretende comprar a película.
O rapaz de pronto responde:
- Pois não. São R$ 19,90.
- Mas eu só vou pagar R$ 8,00 – afirma a moçoila.
- A senhora não entendeu – explica o atencioso rapaz. O DVD custa R$ 19,90.
- Eu sei, mas só vou pagar R$ 8,00 por ele – insiste a madame.
- Como?
- Olha – continua a senhorita –, o filme é bom, eu gosto muito dele e também gosto do atendimento da loja, mas só quero pagar R$ 8,00 por isso.

Toda essa situação lhe pareceu meio estranha?

Como pode, a cliente, querer definir quanto custa o DVD? Ela não conhece todos os encargos e custos envolvendo a produção, distribuição e venda de um DVD, mas mesmo assim quer definir o valor a ser pago por ele.

Por mais controversas que possam existir a cerca do preço de um DVD, o mercado não funciona assim. Quem produz é quem diz quanto custa. O consumidor compra se quer. Ele pode até questionar o valor atribuído, mas não pode definir isso.

É assim em quase tudo por aí: do dentista ao técnico de máquina de lavar. São os fornecedores que dizem quanto seu produto ou serviço custa.

Já na vida de um ilustrador, a situação da hipotética lojinha de DVD de nossa historinha é uma realidade bastante comum (e tem até piores!).

O fato irrefutável é que o ilustrador é quem deve saber quanto custa o seu trabalho. Ele é a única pessoa que pode determinar o valor do serviço que está prestando.

E isso não é simples. A dúvida é recorrente entre os aspirantes a ilustrador: quanto cobrar?

É tão comum essa questão que a internet está repleta de “respostas” pra ela.

Vários sites e blogs já publicaram tabelas de preços, fórmulas matemáticas, piso salariais... mas isso parece confundir ainda mais as pessoas por aí.

Tabelas de preço não são viáveis. Há muitas variáveis que podem envolver um trabalho e o mais comum de acontecer é a tal tabela se tornar inaplicável e acabar não servindo nem como referência.

As fórmulas [tempo gasto + consumo de energia elétrica + diarista que limpa o estúdio = orçamento ] não só deixam de fora uma série de outras questões envolvidas como também são muito complicadas - como eu faço pra calcular a energia elétrica usada na execução de um trabalho?!?

E o “Piso salarial” então? Não mesmo!
No Brasil, “vida de ilustrador” é quase sinônimo de freelance. São poucos os lugares onde se é contratado, com carteira assinada e salário regular no fim do mês... logo, falar em base salarial é utopia...

A verdade é que não há como definir um valor exato para uma ilustração. Assim, todas as opções acabam sendo apenas aproximações do que pode acontecer na realidade.

No mundo real, o ilustrador deve levar em consideração a complexidade de uma arte, seu uso, quem está comprando, a técnica e estilos envolvidos... muita coisa pra pensar.

É por todos esses “poréns” que somente o próprio ilustrador é quem pode definir o quanto cobrar.
E não adianta. Ninguém responderá isso por você.

Mas calma... Não será nada fácil e muito menos simples, mas eu vou tentar ajudar!
Só não espere encontrar resposta pronta no texto abaixo...

Feito de quê?
Não é o mais importante, mas o material usado para produzir a ilustração faz diferença no orçamento.
Mas não faz diferença pelo custo do material em si (o preço do papel, do pincel, da tinta...). Isso é um custo que fica embutido em uma série de trabalhos ao longo do tempo. Fará diferença pelo tempo e prática necessários para utilizar tais materiais.
É muito mais trabalhoso e demorado pintar com aquarela do que pintar no photoshop (sem desmerecer a cor digital), além de todos os anos de prática necessários pra dominar aquela tinta do inferno... Logo, se o cliente quer aquarela, tem que pagar mais por isso.

Pra quê, onde e até quando?
Mas, como disse, o material não é o mais importante.

A maioria das pessoas não entende bem isso, mas um ilustrador não vende uma folha de papel com algo desenhado nele. Ele vende um símbolo, um elemento mais subjetivo, com as mais diversas aplicações.
Como não é um produto físico – sim, ilustração é um produto intelectual – seu valor tem mais a ver com “para o quê” e “onde” ele será usado. E mais: tem a ver com “por quanto tempo” também.

Um personagem que será usado por tempo indeterminado ou de maneira “vitalícia” tem que ser mais caro do que um personagem que será usado por um período mais curto de tempo.

Exemplo: Imaginem ilustrar um personagem que é um coelho e que será usado numa campanha de páscoa. 

Serão apenas dois meses de uso específico em uma campanha publicitária (depois disso, os direitos voltam para o autor, que poderá comercializar esta imagem como quiser). Isso acarretará em um valor X, que seria maior caso o personagem fosse comprado para uso por tempo indeterminado (se fosse se tornar a mascote oficial da empresa de chocolate, por exemplo).
Isso me dá uma base de cálculo para começar e me permite verificar outro ponto muito importante:

É de vender?
Essa é bem difícil de calcular e do cliente entender... ainda usando o exemplo do coelho, um personagem bem feito e bem aplicado, para uma marca famosa, num período de alto consumo como a Páscoa, vai muito provavelmente gerar um retorno financeiro considerável ao comprador da arte. Logo, eu tenho que cobrar proporcionalmente a este lucro presumido, ou estarei perdendo dinheiro.

Ilustrações promocionais, que são usados para merchandising (principalmente personagens), tem maior potencial de lucro (podem dar mais retorno financeiro aos seus donos) do que as artes feitas para didáticos ou similares.

Voltando ao coelhinho da páscoa, se ao invés de uma campanha publicitária ele for utilizado em uma campanha de divulgação do trabalho de uma ONG, seu valor agregado cai porque não há potencial de lucro.

Tamanho não é documento!
Cenário de uma cidade cheia de pessoas estilo “Onde Está Wally?” ou apenas um personagem sozinho, em fundo branco? Esta é um pergunta muito importante! Em outras palavras: será um desenho complexo (a cidade) ou um desenho simples (o personagem)?

Um desenho complexo é um “desenho complexo”, independentemente das proporções usadas. A ilustração da cidade grande cheia de gente estilo “Onde Está Wally?” é bem mais complicada de ser feita do que um desenho de um personagem em fundo branco. Tanto faz se ela ocupa uma página inteira ou é apenas uma vinheta!

Sendo assim, usar princípios como “uma ilustração de página inteira”, por exemplo, não diz nada sobre o trabalho. Não dá pra atribuir um valor baseado nisso - e é justamente aqui onde pecam as tabelas de preço internet a fora: elas determinam os valores com base nos tamanhos das artes, não em seu conteúdo!
O valor deve ser proporcional à complexidade da imagem e não ao seu tamanho.

Dois pesos e duas medidas
Numa olhada rápida pode até parecer errado, mas o ilustrador deve cobrar conforme o cliente.

Como não é um bem material (lembra?), é fato que uma empresa maior tem mais a faturar com uma ilustração do que um cliente pequeno.

Não dá pra cobrar de uma pequena editora regional o mesmo que você cobraria de uma mega empresa multinacional. E vice-versa.

Mas é preciso ter bom-senso aqui: Também não é pra esfolar os cofres da multinacional para fazer um ícone minimalista ou fazer 200 desenhos praticamente de graça para a editora regional! O ilustrador tem que discernir bem a diferenciação entre as empresas e entre as propostas de trabalho.

Quanto custa a hora, querida?
Como tempo é dinheiro, o ilustrador precisa ter uma ideia muito certa de quanto tempo leva para fazer determinada ilustração com técnica X ou Y.

Isso, além de ser imprescindível para se definir o prazo de trabalho, é muito importante na hora de botar um preço no que se faz.

Imagine dois ilustradores recebendo um trabalho idêntico. Ambos vão receber R$ 200,00 para fazer um mesmo desenho, cada um à sua maneira.

O ilustrador “A” faz a ilustra em um dia. Isso lhe vale R$ 200,00.
Já o ilustrador “B” leva 10 dias pra fazer a mesma coisa. Nesse caso, seus dias valeram R$ 20,00 cada.

Parece besta porque, afinal, na conta corrente dos dois terá os mesmos R$ 200,00... parece, mas não é besta não.

O ilustrador “A”, nos mesmos 10 dias, poderia fazer 10 ilustras de R$ 200,00 e faturar R$ 2.000,00 enquanto o “B” continuaria com apenas R$ 200,00.

Mas agora, imagine que o ilustrador “A” faz tudo em uma técnica mais rápida, enquanto o “B” trabalha com técnicas que exigem mais tempo e, por isso, mais é lento.

Pela lógica, “B” deveria cobrar mais pela ilustração.

Claro, na teoria tudo é lindo! Mas aqui eu tenho que fazer uma rápida ressalva: O mercado não funciona exatamente assim... no mundo real, o contratante põe “A” e “B” no mesmo balaio e não liga para a técnica mais demorada usada por “B”.

Injusto, eu sei. Mas aí o problema é com a cabeça de quem paga pela ilustração...
Voltando aos ilustradores: com o tempo – e só com o tempo –, cada um começa saber quanto “custa” sua hora de trabalho e assim presumir quanto cobrar.

Quem é você?
A experiência de um desenhista conta. E muito!
Um desenhista experiente, via de regra, resolve melhor e mais rápido uma ilustração do que um iniciante. 

Além disso, o ilustrador com know-how tem mais a acrescentar em ideia e, em alguns casos, apenas o nome dele já agrega valor ao material junto do público.

Sendo assim, é normal que alguém de renome cobre mais.

Logo, se você começou ontem no mercado de trabalho, caia na real e não ache que vai receber como se fosse o Ziraldo!

E se já vem pago?
Outra verdade sobre a realidade: Não será em todo trabalho que o ilustrador definirá o preço. É bem comum por aí que o cliente já traga uma cifra junto do pedido de ilustração.

Isso não significa que você não deva pensar em tudo isso... Faça a mesma “matemática” e avalie se o valor oferecido pelo potencial cliente vale ou não o trabalho.

E caso a resposta seja negativa, faça uma contraproposta. Barganhe a seu favor. Às vezes pode dar certo.

Quanto vale o show?
Por fim, leve em consideração outros fatores além dos que estão descritos acima:

O trabalho pode me render o que mais além de dinheiro?
Pode me render mais trabalhos futuros?
Meu nome poderá ficar conhecido em algum outro nicho que me interessa?
O trabalho exige uma experiência que eu ainda não tenho e vale a pena ter?

Ou seja, você pode levar em consideração estas questões mais subjetivas. Mas cuidado: é você quem define isso, não o cliente!

Complicado esse lance de preço, não?

Mas eu avisei! Disse lá no começo do texto que não seria fácil... tanto que tem muito ilustrador experiente por aí que ainda fica inseguro na hora de fazer um orçamento.

Mas não se assuste, pense bem em tudo o que você leu aqui e desenvolva seu bom-senso. Ele será seu melhor aliado nessa hora.

É isso.

2 comentários:

  1. Anônimo9:07 AM

    No fim não entendi como faço pra cobrar um desenho.

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  2. Muito bom o artigo, mostra que experiência é tudo.

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